quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Devaneios de uma congestão nasal

Acometida por um destes resfriados, presente do inverno congelante que faz aqui em São Paulo, me peguei sem sentir o cheiro de coisa alguma.Cafunguei aqui e acolá, abri todos os frascos de perfumes, shampoos, hidratantes e até produtos de limpeza numa empreitada sem sucesso em busca de um cheirinho qualquer, bem pequenininho que fosse. Praguejei, reclamei e esperneei,  no que me diziam ''isso é normal, logo passa''.
Logo passa... Nunca tinha acontecido comigo. Ficar sem olfato me fez perceber o quanto este sentido é importante pra mim. Talvez o mais importante deles. Cegueta que sou, sei que consigo rapidamente compensar  minha falta de visão colocando meus óculos, mas como compensar a falta de faro?
No meu delírio de repentinamente ter perdido a capacidade de cheirar para sempre, comecei a me lembrar do porquê os cheiros têm tamanha relevância na minha vida. Aquele namoradinho da adolescência que cheirava à amaciante, o peguete com o cabelo sempre bem lavadinho com ''TRESemmé'', a minha cachorrinha já falecida que tinha um cheirinho de não sei o que, mas do qual eu me lembro muito bem e traz muita saudade...
Penso que talvez o ato de  cheirar não seja um exercício muito comum para a maioria das pessoas. Não, não tô falando que as pessoas não percebam perfume ou fedor. Tô falando daquele cheiro característico de algo que vai muito além do seu Ralph Lauren novo. Cheiro que marca e te faz sentir como se nada no mundo fosse melhor do que aquela essência naquele instante. Aquele cheiro que mesmo depois de ausente você consegue captar sem esforço. ''E o simples ato de cheirar-te me cheira à arte, me leva à Marte'', já dizia a canção. Deve ser por isso que os pernambucanos se despedem com um cheiro ao invés de um beijo. Quanto à mim, paulistana não muito convicta,  me recuperei após alguns dias tristes e sem odor nenhum. Da minha inabilidade momentânea de cheirar ficaram este texto e muitas memórias de um nariz conectado ao coração. Por isso, aos apaixonados de plantão desejo faro de cão perdigueiro, bastante vitamina c e nenhum resfriadinho.
Cheirem-se mais, cheirem-se muito.


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